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23 dezembro 2010

Os sentidos da Paz



Em tempos de festas, comemorações, confraternizações, uma palavra se faz obrigatória comandando os abraços, os apertos de mão, telefonemas, etc.: A Paz! 
Ela traduz um desejo que já ocupa o primeiro lugar nas intenções das pessoas em celebrações individuais ou sociais, até mesmo antes de: “Felicidades”.
A paz é hoje o bem mais precioso e o maestro que rege todos os outros acontecimentos que habitam o nosso mundo interno, o mundo da alma, que nos governa e impulsiona nossas realizações.
Na ausência dela, convivemos com uma revolução interna que nos rouba o bem-estar, induzindo pensamentos pessimistas, alterando a percepção da realidade, confundindo sentimentos e paralisando ações. O que se impõe é a sensação de incapacidade, gerando angustia que pode culminar com a queda da auto-estima e da própria vontade, impossibilitando o crescimento dos indivíduos intelectual e espiritualmente.
Pode-se imaginar um antídoto para isso?
Em verdade todos os nossos sentimentos e sensações têm profunda ligação com os órgãos dos sentidos e o mundo sensorial. Tudo que vemos, ouvimos, tocamos, experimentamos com o paladar, etc, têm um reflexo físico – constituição e vitalidade dos órgãos internos e também um reflexo anímico – produção de sensações e sentimentos de simpatia ou antipatia. Portanto os sentidos são as “antenas” que informam e, em certa medida, transformam, o nosso mundo interno – tudo que acontece dentro de nós: nosso modo de pensar, a qualidade daquilo que sentimos e a força para impulsionar nosso querer – nossa vontade de agir.
Se, desde pequenos, em nosso ambiente, no convívio diário com as pessoas, somos apresentados à coisas e atitudes belas e dignas, como cuidado e respeito pela natureza, animais e seres humanos, estaremos aprendendo essa relação pacificamente, o que será provavelmente internalizado como boa prática marcando valores e princípios, impregnando nossas atitudes ao longo de toda vida, desde a mais tenra infância. 
Sabemos que somos nós adultos os responsáveis diretos pelo que é apresentado às crianças. Elas sugam como uma esponja, todas as informações que lhes são oferecidas via sentidos – as boas e as ruins: ambientes, cheiros, sons, gestos...
Modernamente, algumas áreas do conhecimento vão além dos cinco sentidos conhecidos – alguns já classificam vinte sentidos. Gostaríamos de apresentar a divisão proposta por Rudolf Steiner (1861-1925) que é de doze sentidos: quatro básicos, quatro intermediários e quatro superiores, já presentes desde o nascimento, porém ganhando desenvolvimento ao longo da vida, até culminar sua completude aos 21 anos.
Os quatro sentidos básicos se desenvolvem nos primeiros sete anos de vida – são diretamente influenciados pelos estímulos sensoriais oferecidos nessa época e podem marcar a alma positiva ou negativamente, fixando tendências potencialmente portadoras de paz ou de violência – por isso, precisam ser conhecidos e trabalhados em casa, na escola, de forma a constituir pilares firmes visando uma cultura abrangente para a paz, que primeiro, se configura internamente e, depois, orienta as atitudes externas – portanto, de dentro para fora.
Em nossos próximos encontros vamos clarear o que são os 12 sentidos, iniciando pelos quatro básicos: tato, vital, movimento e equilíbrio.
Por ora devemos ter em mente que crianças são a nossa relíquia; são os depositários do futuro da humanidade. Precisamos nos ocupar em cuidar da preservação da infância e da qualidade desta; sermos exemplo e aspirarmos a um mundo pacífico, concretizado em todas as nossas ações e relações, para que isso seja captado e reproduzido por elas.
Aproveitemos essa época de festas, potencialmente povoada pelo espírito da paz, para rever o que estamos oferecendo para os nossos filhos verem, ouvirem, tocarem, comerem, brincarem...
Revisitemos nossos próprios princípios – o que é genuíno em nós e o que é fruto de imposição da mídia ou da sociedade – exageros e complexidades em detrimento da simplicidade.
Cultivemos em nossos lares, em nosso trabalho, especialmente em nosso coração, um forte e irresistível desejo pela paz e esperemos que, como a pedrinha atirada num lago tranqüilo, esse desejo se amplie e cresça até os confins de todo o planeta.
Que 2010 seja prenhe de paz!
Refletir é preciso!
Dra. Elaine Marasca Garcia da Costa – Médica, Mestre em Educação – Autora do livro: “Saúde se Aprende, Educação é que Cura” - emarasca@splicenet.com.br (...) "

MARAVILHAR-SE: um bálsamo para o coração!





" (...) Pense numa lua linda, enorme, alaranjada surgindo lá no horizonte; ou naquele por do sol e seus reflexos dourados no mar; ou naquele buquê de rosas colombianas vermelho – carmim recebidas do ser amado; naquele despertar ouvindo somente o vento e o canto de um bem-te-vi; naquele cheiro de café e de bolo assando que lhe serão brindados pela manhã; naquele sabor inigualável de fruta madura ou daquele jantar à luz de velas; daquela idéia magnífica que desencadeou um bom negócio; aquele encontro há tanto tempo esperado; aquela viagem passando por lugares inesquecíveis; aquele dia da formatura; a passagem pelo vestibular; a comunicação de ter sido aprovado para aquela vaga; ou sua promoção tão esperada; o nascimento do 1° filho....; ou uma música, um filme, uma paisagem, ou simplesmente um gesto gentil, um sorriso, um abraço, ah! Que delícia, que bom, que lindo, dizemos suspirando... 
Muitas outras coisas poderiam ser elencadas nesse rol de belezas, atos e delícias, que têm o poder de nos maravilhar! É um estado de encantamento que noz faz vibrar internamente e permeia nosso corpo todo com a mais genuína alegria! 
Mas, como isso acontece? O que seria acionado em nosso ser mais íntimo que parece derramar um bálsamo quente a preencher todo nosso coração?!
O ser humano é o único com essa capacidade: MARAVILHAR-SE! 
Isso acontece bem dentro do peito e aponta para onde o ser humano é realmente humano: a região do MEIO, onde estão o coração e os pulmões. É o habitat da condição humana por excelência – O SENTIR . Portanto esses dois órgãos (coração e pulmões) são os verdadeiros responsáveis pela nossa qualidade mais elevada – a faculdade do Sentir. É bem verdade que o Pensar também é exclusivamente humano e é ele quem recebe as impressões do mundo externo e as organiza através dos sentidos e suas conexões neurológicas; porém quem dá o “sentido” e “identifica” essas impressões como simpáticas ou antipáticas, impulsionando nosso AGIR, é nosso SENTIR. Esse espaço é a morada do nosso EU - o responsável pela maneira singular de cada um ver e viver o mundo.É para lá que levamos nossa mão para nos designarmos quando nos apontamos – EU? É comigo?
Perceba-se a qualidade que esses dois órgãos carregam, ou seja, pulmões e coração são os responsáveis pelos nossos sentimentos, ou melhor, por discerní-los e identificá-los. Não por acaso, temos hoje um grande número de doenças cardíacas no mundo todo, sendo o coração, o campeão de mortes (por doença).
Esse processo provavelmente está ligado à dificuldade atual do homem em deixar-se invadir e aprender a compreender seus sentimentos naturalmente, como o faz com o PENSAR.
O privilégio cultural do Pensar e da razão, encobre até mesmo o aprendizado do sentir. Sim, sentir também se aprende, se organiza através de experiências bem conduzidas desde a infância. É nosso dever oferecer esse suporte às crianças e jovens no sentido de dar-lhes segurança para um sentir sadio. 
Por outro lado, sabemos que o 1° e primordial sentimento que nasce na criança, é a gratidão – a partir dessa qualidade se assentam os outros sentimentos. Para isso, a infância precisa ser um período onde se vivencia que o mundo é bom e confiável (especialmente nos primeiros 7 anos). Amor, carinho, compreensão são fundamentais para esse despertar. A ausência desses parâmetros talvez aponte para um caminho que desembocará, mais tarde, em violência e/ou apatia.
Cuidemos de apresentar maravilhas aos nossos filhos – não somente as físicas, mas também aquelas derivadas de pequenos gestos, cuidados, estímulos... Assim estaremos alimentando sua condição humana, oferecendo-lhes a possibilidade para desenvolverem a solidariedade, a compaixão, a coragem, o que deve ser feito através de nosso exemplo.
Em tese, também estaremos construindo bons corações e pulmões saudáveis.
Quando alguém “suspira” : Oh! que maravilha, é como se recebesse um sopro quente, acalantado pelo próprio criador, quase num sussurro particular, exclusivo, instilando dentro de cada alma, um pouco mais de calor, humano! 
Maravilhar-se é saber-se divino.
Maravilhar-se é preciso!
Refletir é preciso!
Dra. Elaine Marasca Garcia da Costa é médica Pneumologista com formação em Antroposofia/Biografia Humana. Mestre em Ciências da Educação. Docente/coordenadora do curso de pós-graduação - Antroposofia na Saúde. Presidente da Liga dos Usuários da Medicina e Terapias Antroposóficas.Diretora Clínica do Lucas Terapeuticum Desenvolvimento Humano.
emarasca@splicenet.com.br
 (...)"


RESPIRAÇÃO – VELOCÍMETRO DA ALMA







Não há quem duvide da grandeza e da magnitude do processo de respirar para a sobrevivência do ser humano.
A respiração vai muito além das meras trocas gasosas de oxigênio por gás carbônico – esta é apenas uma das etapas que constituem esse meticuloso estado responsável pela preservação da vida – sim, ela “instala” a vida no ser humano – ao nascimento com a 1ª inspiração e “recolhe” a vida, no momento da morte, com a última expiração. Pela respiração entramos e saímos do mundo terreno! Se observarmos as três etapas do processo respiratório: inspiração (o2) – troca (sangue) – expiração (Co2), podemos imaginar que o processo de vida e morte se repetem continuamente indicando que a nossa vida também teria o caráter de uma grande respiração: começa com inspiração e termina com expiração e tudo que acontece entre o 1º e o último movimento são as “trocas”! A respiração é a maneira que o homem tem de manter o contato do seu mundo interno com o mundo externo – e é isso que o mantém vivo! O fato de ele poder se relacionar (trocar) com a natureza e os outros seres vivos é condição sinequanon para a vida e para um desenvolvimento caracteristicamente humano!
Explico: todos nós temos um mundo interno, ou seja, uma alma que nos dá a capacidade de Pensar, de Sentir e de Agir – só nós conhecemos e dominamos este mundo que é singular, único para cada um. Porém ele só tem razão de ser e de evoluir se encontrar-se, confrontar-se, relacionar-se com o mundo que está fora de nós – os outros seres, a natureza, os acontecimentos, o clima etc. É nesse processo que todos nós nos desenvolvemos e elevamos a nossa própria condição humana! É daquilo que entra em nós do mundo externo que podemos elaborar “diálogos internos”, que depois se exteriorizam novamente para compor o mundo externo, impregnado de uma parte de cada um.
Podemos supor então que o ar, representante do mundo externo, se compõe de um pouco de cada um de nós e um pouco de tudo que existe na natureza, desde os elementos visíveis, ponderáveis até os mais imponderáveis demandados pelas esferas cósmicas. Isso tudo a que chamamos Mundo Externo, penetra no ser humano de maneira mais ou menos profunda, segundo um consentimento e uma preparação de cada um, e está traduzido claramente no modo como cada pessoa respira!
Se tivermos abertura, liberdade e coragem para receber o mundo externo, nossa inspiração é grande, ampla, profunda; se tivermos insegurança, ansiedade, medo de contato,essa inspiração se encurta, fica superficial não conseguindo preencher 100% dos pulmões. Essa condição obriga a pessoa a respirar mais vezes para compensar as necessidades gasosas e, portanto essa respiração se torna mais rápida. Isso dificulta fisicamente uma boa oxigenação e, ao mesmo tempo, impede uma verdadeira percepção desse mundo externo, o que produz uma sensação anímica desagradável como uma incapacidade de lidar com as coisas práticas, reais, levando esses indivíduos a viverem num mundo fictício, com muita dificuldade de viver no presente – com tendência a idéias fixas, repetições – característica dos ansiosos. Algo semelhante, porém de modo inverso, pode acontecer com a expiração. Alguns indivíduos recebem o ar de maneira razoavelmente normal, mas são incapazes de soltar completamente aquela porção de si que está injetada obrigatoriamente no ar expirado. São pessoas com dificuldades de doar-se em todos os sentidos; guardam muitas coisas, tem muitas dificuldades para mudanças tendendo ao conservadorismo – é característico esse comportamento nos asmáticos, onde a dificuldade é a saída do ar (expiração) facilmente observada numa crise asmática, onde o indivíduo parece ter que “soprar”, ou seja, fazer força para soltar o ar que deveria seguir um caminho passivo. Nesse ponto o leitor já terá condições de perceber que a respiração saudável em repouso, deverá reger um movimento de entrada e saída de ar num ritmo oscilante e harmônico apenas semiconsciente, e sem esforço algum.
Será capaz de intuir que quando o ritmo respiratório acelerar, assim também se encontrará o nosso mundo interno (alma) num susto ou medo extremo, por exemplo, e que quando dormimos esse ritmo, deverá ser mais lento.
A respiração evidencia uma parte da alma e participa como causa ou conseqüência em muitas patologias, especialmente aquelas onde está dificultado o contato com o presente.
A cura desses processos deverá incluir obrigatoriamente um trabalho com a própria respiração para que esta alcance uma maior profundidade, um ritmo mais harmonioso, trazendo novamente a sensação de pertencimento ao mundo terreno e a re-conexão com o tempo real e com o presente.
Fica implícito então, o vinculo que a respiração tem diretamente com o nosso mundo interno, aquele que nos guia que nos anima e que, em última análise, detém o controle que regulamenta a velocidade – ora acelerando, ora desacelerando todo processo respiratório. Dizemos que através da respiração temos idéia do que acontece no mundo interior, ou na alma de uma pessoa podendo mesmo assumir uma característica como se fora o seu próprio velocímetro. Essa é uma poderosa ferramenta para médicos e terapeutas que ao observarem atentamente as características respiratórias, certamente terão boas informações sobre o funcionamento do mundo interno e de seus pacientes.
Dra. Elaine Marasca Garcia da Costa é médica Pneumologista com formação em Antroposofia/Biografia Humana. Mestre em Ciências da Educação. Docente/ coordenadora do curso de pós-graduação - Antroposofia na Saúde na UNISO.